A interpretação dos sonhos: uma forma de compreender o inconsciente
Em A Interpretação dos Sonhos (1900), Sigmund Freud problematiza a vida onírica e rompe com as leituras místicas da Antiguidade e com a redução fisiológica. Ele demonstra que há uma técnica psicológica que revela o sonho como uma formação psíquica dotada de sentido e uma linguagem do sujeito. Como observa Sidarta Ribeiro (2019), o sonho é uma prática humana universal e um espaço de elaboração simbólica baseado nos resíduos diurnos — memórias da vigília que servem de suporte para que desejos inconscientes encontrem representação.
Freud chega à sua primeira tese: o sonho é a realização disfarçada de um desejo inconsciente, reprimido ou incompatível com as normas sociais. Para evitar a angústia, a censura onírica deforma o conteúdo latente (o que não recordamos) transformando-o em conteúdo manifesto (o que lembramos ao despertar). Esse processo de coerção liga-se a proibições sociais, articulando-se ao pensamento de Michel Foucault (1987) sobre as limitações impostas ao corpo pelas redes de poder.
Identificado como a via régia de acesso ao inconsciente, o sonho estabelece um campo de negociação entre o desejo e a cultura. Conforme Luiz Alfredo Garcia-Roza (1991), o psiquismo passa a ser concebido como dividido e estruturado por uma linguagem, rompendo com o referencial neurológico.
Lacan e a Linguagem do Inconsciente
Essa dimensão é aprofundada por Jacques Lacan (1964), que afirma que o inconsciente é estruturado como uma linguagem, onde o desejo se divide na metonímia da fala. O sonho torna-se um texto a ser lido em forma de metáfora e metonímia (equivalentes à condensação e ao deslocamento freudianos), constituindo o cerne da verdade do sujeito.
Além do Princípio do Prazer
Posteriormente, em Além do Princípio do Prazer (1920), Freud tensiona sua tese inicial ao identificar sonhos de angústia e repetições traumáticas que visam controlar ou ligar a excitação, independentemente do princípio do prazer. Essa mudança introduz a pulsão de morte: o sonho passa a ser também um retorno do trauma e uma tentativa de dominar o impossível de simbolizar.
Esse paradoxo entre o desejo e a repetição traumática mantém a atualidade da obra, que continua a convocar a escuta do inconsciente.
Referências
- Freud, S. (1900). A interpretação dos sonhos.
- Freud, S. (1920). Além do princípio do prazer.
- Foucault, M. (1987). Vigiar e punir.
- Garcia-Roza, L. A. (1991). Freud e o inconsciente.
- Lacan, J. (1964). O seminário, livro 11: os quatro conceitos fundamentais da psicanálise.
- Ribeiro, S. (2019). O oráculo da noite.